Avaliação do estado ambiental

A avaliação do estado ambiental das aves marinhas em Portugal baseia-se em indicadores desenvolvidos no âmbito da Convenção OSPAR, em articulação com os critérios definidos pela Diretiva-Quadro Estratégia Marinha (DQEM; Diretiva 2008/56/EC).

Continente

No Continente, algumas populações mantêm níveis de abundância compatíveis com o Bom Estado Ambiental, refletindo tendências estáveis ao longo das últimas décadas. Este é o caso das populações reprodutoras de gaivota-de-patas-amarelas Larus michahellis, cuja abundância se manteve relativamente estável, apesar de flutuações interanuais, e de outras espécies reprodutoras como a cagarra Calonectris borealis, o roque-de-castro Hydrobates castro ou a chilreta Sternula albifrons. Contudo, algumas espécies revelam padrões menos favoráveis (Tabela 1). A variabilidade na produtividade é particularmente evidente em espécies dependentes de pequenos peixes pelágicos, como a cagarra, sugerindo uma possível ligação a flutuações na disponibilidade alimentar. Já na galheta Gulosus aristotelis, a conjugação de declínio na abundância relativa com produtividade reduzida constitui um sinal mais robusto de alteração do estado ambiental.

EspécieAbundânciaProdutividade
 ContinenteAçoresMadeiraContinenteAçoresMadeira
Roque-de-castro Hydrobates castroBEABEA BEABEA 
Painho-de-monteiro Hydrobates monteiroi BEA  nBEA 
Freira-do-bugio Pterodroma deserta  BEA  nBEA
Freira-da-madeira Pterodroma madeira  BEA  nBEA
Cagarra Calonectris borealisBEAnBEABEAnBEAnBEABEA
Pintainho Puffinus baroli nBEA    
Alma-negra Bulweria bulwerii BEA  BEA 
Galheta Gulosus aristotelisnBEA  nBEA  
Corvo-marinho Phalacrocorax carboBEA     
Gaivota-de-audouin Larus audouiniiBEA     
Gaivota-d'asa-escura Larus fuscusBEA     
Gaivota-de-patas-amarelas Larus michahellisBEABEAnBEA   
Chilreta Sternula albifronsBEA     
Tagaz Gelochelidon niloticaBEA     
Garajau-rosado Sterna dougallii nBEA    
Garajau-comum Sterna hirundo BEA    
Tabela 1. Resumo da Avaliação do Bom Estado Ambiental das populações reprodutoras para os indicadores da abundância e produtividade, para as três regiões - Continente, Açores e Madeira. As células a verde indicam que a população atingiu o Bom Estado Ambiental (BEA), enquanto as células a vermelho indicam que o mesmo não foi atingido (nBEA).

No caso das populações não reprodutoras que utilizam a plataforma continental, a tendência é geralmente mais difícil de interpretar devido à elevada variabilidade interanual e à influência de fatores oceanográficos de larga escala (Tabela 2). Ainda assim, o indicador B1 aponta para situações contrastantes entre espécies. Algumas apresentam valores compatíveis com um estado ambiental favorável, como a negrola Melanitta nigra, a pardela-de-barrete Ardenna gravis, o corvo-marinho Phalacrocorax carbo e o garajau-de-bico-preto Thalasseus sandvicensis. Em contraste, outras espécies evidenciam tendências menos favoráveis na abundância relativa, nomeadamente a pardela-do-atlântico Puffinus puffinus, a pardela-balear Puffinus mauretanicus, o alcatraz Morus bassanus, o alcaide Catharacta skua, a torda-mergulheira Alca torda e o papagaio-do-mar Fratercula arctica, entre outras, refletindo possivelmente alterações na distribuição sazonal ou na disponibilidade de presas.

Globalmente, no Continente, o padrão dominante é de heterogeneidade entre espécies, com algumas populações estáveis e outras em situação menos favorável.

EspécieContinenteAçoresMadeira
Aves marinhas
Negrola Melanitta nigraBEA  
Alma-de-mestre Hydrobates pelagicusnBEA  
Pardela-preta Ardenna griseaBEA  
Pardela-de-barrete Ardenna gravisBEA  
Pardela-do-atlântico Puffinus puffinusnBEA  
Pardela-balear Puffinus mauretanicusnBEA  
Alcatraz Morus bassanusnBEA  
Corvo-marinho Phalacrocorax carboBEA  
Gaivota-tridáctila Rissa tridactylaBEA  
Guincho Larus ridibundusBEABEAnBEA
Gaivota-de-cabeça-preta Larus melanocephalusnBEA  
Gaivota-d'asa-escura Larus fuscusnBEA  
Gaivina-preta Chlidonias nigernBEA  
Garajau-de-bico-preto Thalasseus sandvicensisBEA  
Moleiro-pequeno Stercorarius parasiticusnBEA  
Moleiro-do-árctico Stercorarius pomarinusBEA  
Alcaide Catharacta skuanBEA  
Papagaio-do-mar Fratercula arcticanBEA  
Torda-mergulheira Alca tordanBEA  
Limícolas
Ostraceiro Haematopus ostralegusBEABEA 
Tarambola-cinzenta Pluvialis squatarolaBEAnBEAnBEA
Borrelho-grande-de-coleira Charadrius hiaticulaBEABEAnBEA
Borrelho-de-coleira-interrompida Charadrius alexandrinusnBEAnBEAnBEA
Maçarico-galego Numenius phaeopusBEAnBEAnBEA
Rola-do-mar Arenaria interpresnBEAnBEABEA
Seixoeira Calidris canutusnBEAnBEA 
Pilrito-das-praias Calidris albaBEAnBEABEA
Pilrito-de-peito-preto Calidris alpinanBEAnBEABEA
Pilrito-escuro Calidris maritimaBEAnBEA 
Maçarico-das-rochas Actitis hypoleucosBEAnBEAnBEA
Tabela 2. Resumo da Avaliação do Bom Estado Ambiental das populações não reprodutoras para o indicador da abundância, para as três regiões - Continente, Açores e Madeira. As células a verde indicam que a população atingiu o Bom Estado Ambiental (BEA), enquanto as células a vermelho indicam que o mesmo não foi atingido (nBEA).

Açores

Os Açores concentram algumas das mais importantes populações reprodutoras de aves marinhas do Atlântico Nordeste, conferindo à região uma responsabilidade internacional acrescida. Espécies como a cagarra, o roque-de-castro e o garajau-rosado Sterna dougallii desempenham um papel central na avaliação regional.

Relativamente à abundância das populações reprodutoras, várias espécies apresentam valores compatíveis com o Bom Estado Ambiental. É o caso do roque-de-castro, do painho-de-monteiro Hydrobates monteiroi, da gaivota-de-patas-amarelas e do garajau-comum Sterna hirundo, cujas tendências recentes não evidenciam reduções significativas face aos valores de referência. Em contraste, outras espécies não atingem os limiares definidos para o Bom Estado Ambiental. O pintainho Puffinus baroli, o garajau-rosado e a cagarra apresentam valores de abundância relativa inferiores aos níveis de referência, sugerindo alterações demográficas que merecem acompanhamento atento. No caso destas espécies, a redução na abundância poderá refletir uma combinação de fatores, incluindo variabilidade na disponibilidade alimentar, pressões em mar aberto e constrangimentos nas colónias.

No que respeita à produtividade, apenas foi possível avaliar 3 espécies, sendo que o roque-de-castro apresenta valores compatíveis com uma trajetória populacional estável. Já a cagarra e o painho-de-monteiro não atingem os limiares definidos, o que constitui um sinal relevante, dado que reduções persistentes no sucesso reprodutor podem antecipar declínios futuros na abundância.

No conjunto, os Açores apresentam um quadro maioritariamente estável, mas com sinais de vulnerabilidade em algumas espécies-chave, reforçando a importância de manter séries temporais robustas e monitorização contínua.

Madeira

Na Madeira, a avaliação do estado ambiental foi possível para um número mais reduzido de espécies, refletindo a dimensão limitada das populações reprodutoras e a disponibilidade de séries temporais consistentes. No total, apenas cinco espécies reuniram informação suficiente para aplicação dos indicadores.

Relativamente ao indicador de abundância, a maioria das espécies avaliadas apresenta valores compatíveis com o Bom Estado Ambiental. As exceções correspondem à gaivota-de-patas-amarelas e ao guincho Larus ridibundus, cujos valores de abundância relativa se situam abaixo dos limiares definidos.

A cagarra apresenta um resultado favorável tanto no indicador de abundância como no de produtividade, sugerindo uma situação demográfica globalmente estável na região. Em contraste, as espécies endémicas, freira-do-bugio Pterodroma deserta e freira-da-madeira Pterodroma madeira, não atingem os limiares definidos no indicador de produtividade. Dada a reduzida dimensão das suas populações e a sua distribuição restrita, estes resultados assumem particular relevância para a conservação regional, sublinhando a vulnerabilidade destas espécies a alterações nas condições ambientais e a pressões cumulativas.

Avaliação nacional

A análise conjunta das três regiões evidencia um panorama diferenciado do estado ambiental das aves marinhas, em Portugal (Tabela 3). No Continente, predomina uma forte heterogeneidade entre espécies, com situações contrastantes tanto em populações reprodutoras como não reprodutoras, refletindo a elevada variabilidade oceanográfica e a diversidade de pressões na plataforma continental. Nos Açores, apesar de várias espécies manterem níveis compatíveis com o Bom Estado Ambiental, emergem sinais de vulnerabilidade em espécies-chave, particularmente quando se considera o indicador de produtividade. Na Madeira, onde apenas se conseguiu avaliar quatro das 10 espécies nidificantes, observa-se uma situação globalmente estável para a maioria das espécies analisadas, mas com particular preocupação associada às espécies endémicas, cuja produtividade abaixo dos limiares definidos reforça a sua sensibilidade ecológica.

No conjunto, os resultados revelam uma situação maioritariamente estável à escala nacional, mas marcada por contrastes regionais e por sinais de alerta específicos que justificam o reforço da monitorização, sobretudo em espécies de distribuição restrita ou fortemente dependentes de recursos marinhos variáveis.

 ContinenteAçoresMadeira
Aves marinhas reprodutoras
Abundância89% (9)63% (8)75% (4)
Produtividade33% (3)50% (4)33% (3)
Populações não reprodutoras - abundância
Aves marinhas42% (19)100% (1)0% (1)
Limícolas64% (11)18% (11)38% (8)
Tabela 3. Percentagem de espécies avaliadas em Bom Estado Ambiental por grupo de espécies (aves marinhas ou limícolas), para cada indicador (Abundância ou Produtividade) e em cada região. O número total de espécies avaliadas é apresentado entre parênteses. As células a verde indicam que ≥75% das populações avaliadas estão em Bom Estado Ambiental, enquanto as células a vermelho indicam que <75% das populações atingiram o Bom Estado Ambiental.