1. Seguimento individual de aves marinhas

Âmbito temporal e geográfico

O mapeamento da distribuição das espécies com dados de seguimento individual restringiu-se à ZEE de Portugal (ver exemplo na Figura 1). Este exercício foi feito para cada uma das três subáreas em separado, continente, Açores e Madeira. Em termos de cobertura temporal, foram incluídos todos os dados disponíveis e recolhidos por aparelhos de seguimento individual - o que, por ser uma tecnologia relativamente recente, traduziu-se numa série temporal com início há pouco mais de duas décadas. De facto, os dados mais antigos analisados, dizem respeito ao seguimento de pardela-balear com aparelhos de satélite usados ano ano 2000. Já os dados mais recentes, foram recolhidos em 2025. No entanto, existe uma grande heterogeneidade na cobertura da informação compilada para cada espécie, quer ao nível espacial, quer ao nível temporal.

Exemplo da distribuição dos dados brutos com as localizações de cagarra obtidas através de aparelhos GPS, para a ZEE de Portugal. Foi atribuída uma cor diferente a cada indivíduo.
Figura 1. Exemplo da distribuição dos dados brutos com as localizações de cagarra obtidas através de aparelhos GPS, para a ZEE de Portugal. Foi atribuída uma cor diferente a cada indivíduo.

Compilação e preparação dos dados

A compilação dos dados de seguimento individual começou com a consulta de três plataformas digitais específicas para este tipo de informação, a Seabird Tracking Database (gerida pela BirdLife International), o Movebank (gerido pelo Instituto Max Planck de Comportamento Animal) (Kolzsch et al. 2022) e a Seatrack (propriedade do Instituto Polar Norueguês e do Instituto Norueguês para Investigação da Natureza - NINA). Estas três plataformas albergam a grande maioria da informação de seguimento individual de aves disponível, a nível global.

Foram identificados os conjuntos de dados e as espécies com ocorrência dentro da ZEE de Portugal. As espécies listadas no Atlas das Aves Marinhas de Portugal (Meirinho et al. 2014), para as quais foi encontrada pouca ou nenhuma informação, foram sujeitas a um segundo nível de pesquisa que incluiu a consulta em motores de busca generalistas e especializados em documentos científicos. Utilizou-se como palavras-chave o nome das espécies (científico e comum) associado a diversos termos, nomeadamente, tracking, wintering distribution, GPS, GLS e movements. Os autores dos trabalhos identificados foram contactados diretamente, com o objetivo de pedir autorização para a utilização da informação e acesso à mesma.

Galheta pousada numa falésia rochosa, transportando um dispositivo GPS-GSM nas costas.
Galheta com GPS-GSM | Ana Marcos Morais

Dos 336 conjuntos de dados identificados com potencial sobreposição com a ZEE nacional, foram disponibilizados 224, com as respectivas autorizações de utilização (Figura 2). Cada conjunto de dados correspondeu a uma espécie nidificante numa determinada colónia ou localização (salvo a exceção de aves capturadas no mar), monitorizada com um tipo específico de dispositivo e durante um período específico. No caso de espécies com dados de diferentes tipos de dispositivos (i.e. GPS e GLS), foram priorizados os GPS, devido ao menor erro de localização (apenas alguns metros). Nos casos em que a quantidade de dados obtidos por GPS foi reduzida, ou limitada a um pequeno número de indivíduos, e os GLS forneceram uma quantidades de dados substancialmente maior, optou-se por estes últimos, assumindo que refletiam melhor a distribuição da espécie apesar do erro de localização mais elevado (100 - 200 km) (Bennett et al. 2025). Os dados recolhidos por aparelhos GPS e PTT (sistema de satélite), por terem margens de erro semelhantes, foram considerados em conjunto.

Número de espécies com localizações dentro de cada região ao longo dos anos.
Figura 2. Número de espécies com localizações dentro de cada região ao longo dos anos.

O mapeamento da distribuição das espécies foi realizado separadamente para o período reprodutor e o período não-reprodutor (Figura 3). Para tal, foi criada uma grelha hexagonal coincidente com as três subáreas da ZEE portuguesa - continente, Açores e Madeira - escolhida por facilitar a visualização. As localizações foram agrupadas em hexágonos com 25 km de diâmetro, para dados GPS e 50 km, para GLS. Foi atribuído o somatório do número de localizações no interior de cada hexágono. Este processamento foi feito seguindo uma abordagem muito simples, de forma a evitar interpretações ou extrapolações dos dados, que não seriam o propósito do presente trabalho.

Períodos fenológicos (reprodução e não reprodução) usados para mapear a distribuição das diferentes espécies com base nos dados de seguimento individual.
Figura 3. Períodos fenológicos (reprodução e não reprodução) usados para mapear a distribuição das diferentes espécies com base nos dados de seguimento individual.

2. Abundância e distribuição das colónias de reprodução

Com o objetivo de mostrar visualmente a distribuição das colónias das aves marinhas que nidificam em Portugal e de ilustrar a sua importância relativa, esta publicação inclui para cada uma dessas espécies, um ou mais mapas com as colónias de nidificação no continente, na Madeira e nos Açores. As 21 espécies consideradas (Tabela 4) foram escolhidas com base na informação disponível no último Atlas das Aves Nidificantes de Portugal (Equipa Atlas 2022).

EspécieContinenteAçoresMadeira
Calcamar Pelagodroma marina  x
Roque-de-castro Hydrobates castroxxx
Painho-de-monteiro Hydrobates monteiroi x 
Freira-do-bugio Pterodroma deserta  x
Freira-da-madeira Pterodroma madeira  x
Cagarra Calonectris borealisxxx
Pardela-do-atlântico Puffinus puffinus xx
Pintainho Puffinus baroli xx
Alma-negra Bulweria bulwerii xx
Galheta Gulosus aristotelisx  
Corvo-marinho Phalacrocorax carbox  
Guincho Larus ridibundusx  
Gaivota-de-audouin Larus audouiniix  
Gaivota-d’asa-escura Larus fuscusx  
Gaivota-de-patas-amarelas Larus michahellisxxx
Garajau-de-dorso-preto Onychoprion fuscatus x 
Chilreta Sternula albifronsx  
Tagaz Gelochelidon niloticax  
Gaivina-dos-pauis Chlidonias hybridax  
Garajau-rosado Sterna dougallii xx
Garajau-comum Sterna hirundoxxx
Airo Uria aalge*  
Tabela 4. Lista de espécies e regiões (continente, Madeira e Açores) consideradas para o mapeamento de colónias de nidificação das aves marinhas.

*Nota: apesar do airo ainda ser considerado como espécie nidificante, a sua reprodução não é notada desde 2002.]

O desafio de mapear e quantificar as colónias de aves marinhas é exacerbado pela falta de informação que ainda persiste sobre algumas populações, que se deve sobretudo à dificuldade de prospeção em locais inacessíveis, mas também ao comportamento noturno e elusivo de muitas delas. Outra dificuldade importante é a ausência de programas de monitorização de longo prazo em muitos locais e para muitas espécies.

Âmbito temporal e geográfico

Inicialmente, procurou delimitar-se a utilização de informação atualizada, considerando apenas os últimos 5 anos (2021-2025). Contudo, devido às lacunas de informação existentes para muitas espécies e locais, a cobertura temporal foi estendida para algumas populações, de forma a incluir a melhor informação existente. No caso de espécies cujos locais de nidificação e padrões de abundância apresentam elevada variabilidade, como é o caso dos garajaus, devido à sua flexibilidade comportamental e à maior exposição dos seus habitats a pressões humanas, foram incluídos dados dos últimos 10 anos (2016-2025).

A nível espacial, a identificação dos locais de nidificação no território continental incluiu os ambientes insulares, como as Berlengas e as ilhas Barreira, mas também a faixa costeira, nomeadamente falésias e zonas húmidas costeiras, incluindo estuários e lagoas. Também foram incluídos os locais de nidificação em albufeiras interiores, como por exemplo, o Alqueva. Foram também identificadas as colónias de nidificação nos arquipélagos da Madeira e dos Açores, procurando-se ilustrar separadamente as colónias das três regiões (continente, Açores e Madeira) para melhor visualização e interpretação dos resultados.

Recolha de dados

A recolha de informação sobre colónias de nidificação foi efetuada através das seguintes formas:

  1. Pedido de dados a investigadores e instituições governamentais
    Foram feitos pedidos de dados a investigadores que desenvolvem ou desenvolveram trabalhos de monitorização em colónias de aves marinhas, sobre a localização e tamanho de colónias reprodutoras. O mesmo tipo de pedido de informação foi enviado para as entidades governamentais, tanto no continente (ICNF) como nos arquipélagos (IFCN e SRAAC). Para facilitar a partilha de informação e a padronização dos dados recolhidos, foi enviado um template de ficheiro para partilha de dados, em formato Excel (Tabela 5).
  2. Recolha bibliográfica
    Foram consultadas publicações de referência, artigos científicos e relatórios técnicos de projetos, para a recolha de informação sobre a localização de colónias e tamanhos populacionais.
  3. Fontes de dados adicionais
    Para algumas espécies (e.g., corvo-marinho Phalacrocorax carbo), foi ainda recolhida informação adicional proveniente de outro tipo de plataformas, como o eBird/PortugalAves, sobre a localização de colónias de nidificação. Apenas foram considerados dados adicionais nos casos devidamente comprovados, isto é, quando existiu evidência documental da reprodução (e.g., registo fotográfico) e foi possível determinar a respetiva localização.
ParâmetroDescrição
EspécieNome científico da espécie
RegiãoContinente, RA Madeira ou RA Açores
IlhaNome da ilha
Ilhéu/ColóniaNome do ilhéu ou colónia
Coordenadas da colóniaLatitude e Longitude, no formato decimal
Coordenadas da faixa costeiraNo caso de a área monitorizada corresponder a uma faixa costeira extensa, devem ser indicadas preferencialmente as coordenadas de início e fim dessa faixa costeira ou, em alternativa, as coordenadas centrais dessa faixa costeira.
Precisão das coordenadasalta: 0 - 50m
média: 50 - 250m
baixa: > 250m
Estimativa populacionalContagem ou estimativa do tamanho da população
IntervaloValor mínimo e máximo da estimativa populacional
Unidade de contagemNº de casais, ninhos ou indivíduos
Rigor da estimativaA - margem de erro estimada inferior a 10%
B - margem de erro estimada inferior a 50%
C - margem de erro estimada superior a 50%
D - desconhecida
Método de censo1 - Prospeção/contagem de ninhos/casais
2 - Escutas
Cobertura do censoCompleta - maioria da área potencial foi monitorizada
Incompleta - Uma parte significativa da área potencial não foi monitorizada (> 25%)
Muito incompleta - Uma parte significativa da área potencial não foi monitorizada (> 50%)
AnoAno ou intervalo de anos da contagem ou estimativa populacional
ReferênciaDeve indicar-se a origem e autoria dos dados, referindo se são dados não publicados ou citando um relatório, livro ou artigo, caso estes dados estejam já publicados.
NotasOutras informações
Tabela 5. Lista e descrição dos parâmetros incluídos no pedido de dados sobre o tamanho e localização de colónias reprodutoras de aves marinhas.

Preparação dos dados

Os dados foram organizados em ficheiros individuais, com a informação das coordenadas, da estimativa populacional e data da estimativa, por espécie e por região (continente, RA Açores, e RA Madeira). No caso de colónias próximas (< 1km), a informação foi agregada, de forma a otimizar a visualização dos mapas. As estimativas foram ainda organizadas por classes de abundância, de forma a facilitar a visualização e interpretação dos dados nos mapas, e a minimizar o impacto de estimativas menos precisas. No caso de existirem várias estimativas populacionais, o critério de escolha foi a utilização das mais recentes, excepto nos casos em que as estimativas anteriores eram mais completas e/ou precisas, dando-se assim primazia a estas.

No caso da espécie ocorrer em mais do que uma região, foi ainda preparado um ficheiro adicional com a informação das várias regiões e a estimativa populacional agregada por ilha, ou grupo de ilhas (e.g., Desertas, Selvagens). Nestes casos, a localização apresentada não é a localização da colónia, mas uma localização central da ilha ou da maior ilha, no caso de um grupo de ilhas.

A lista dos dados utilizados e as respectivas fontes podem ser consultadas na Publicação.

3. Avaliação do estado das populações

A avaliação dos indicadores presente neste trabalho foi realizada para cada espécie e região (continente, Açores e Madeira) em separado. Para espécies com populações reprodutoras e não-reprodutoras ou migratórias, a avaliação incidiu apenas sobre a população reprodutora (excepto no caso da gaivota-d’asa escura Larus fuscus e do corvo-marinho Phalacrocorax carbo).

Âmbito temporal e geográfico

A informação utilizada para avaliar o estado ambiental das aves marinhas nidificantes incluiu as séries históricas disponíveis na bibliografia e em bases de dados existentes, refletindo a informação mais atual até 2024. Em termos espaciais, a avaliação foi separada por região – continente, Açores e Madeira. No caso da avaliação das populações de aves marinhas não-reprodutoras foi considerada a informação recolhida entre 2004 e 2024, através de censos marinhos, a bordo de embarcações. Esta avaliação foi realizada apenas para Portugal continental, restringindo-se à zona costeira até aos 200 m de profundidade, devido à ausência de uma série temporal robusta que permitisse fazer este exercício para as regiões dos Açores e da Madeira. No caso da avaliação das populações de aves limícolas não-reprodutoras, a informação foi recolhida no inverno (dezembro e janeiro) entre 2009 e 2025, no âmbito do Projeto Arenaria. A cobertura deste projeto incluiu a costa não-estuarina do continente e toda a costa das ilhas dos Açores e da Madeira.

Indicador B1 – Abundância de Aves Marinhas Reprodutoras

A avaliação deste indicador seguiu a metodologia descrita por Dierschke et al. (2022b) e adotada pela OSPAR (Acordo OSPAR 2016-09). Esta avaliação tem como base a construção de séries temporais de estimativas anuais de abundância relativa de aves reprodutoras. Nem todas as colónias e locais de reprodução foram amostrados em todos os anos da série temporal. Para colmatar esta lacuna, os valores em falta foram interpolados a partir dos anos amostrados, usando modelos aditivos generalizados GAM (Ward et al. 2014). Apenas as colónias ou locais de reprodução com mais de dois anos de dados de abundância observada foram incluídos nesta análise.

Garajau-comum adulto com uma cria, ambas pousadas no topo de uma rocha.
Garajau-comum com cria | Joaquim Teodósio

Neste indicador, a abundância relativa é apresentada como o número de aves adultas ou o número de casais reprodutores observados ou estimados anualmente em proporção a um valor de referência, seguindo a seguinte equação:

Abundância relativa = abundância anual / valor de referência

O valor de referência para a abundância foi estabelecido consoante a informação disponível, dando-se prioridade ao valor histórico de referência (valor de abundância anterior ao início da série temporal). Na ausência de tal valor, optou-se por utilizar o período inicial da série temporal, ou seja, os primeiros 10 anos. Neste caso, o valor de referência foi obtido através de predições com base num modelo linear generalizado para procurar uma tendência anual nesse período. Os valores de significância p e os intervalos de confiança das estimativas foram calculados assumindo uma distribuição “Quasi-poisson” de forma a ter em consideração a sobredispersão dos dados. No caso desta regressão ser significativa para os primeiros 10 anos (valor de p ≤ 0,05), o valor estimado pelo modelo para o primeiro ano foi utilizado como valor base, caso contrário, foi utilizada a média da abundância nos primeiros 10 anos, excluindo os anos sem contagens. A média geométrica da abundância nos últimos seis anos da série temporal (i.e. o período mais recente) foi avaliada em comparação com o valor de referência. No caso de espécies que colonizaram recentemente (<50 anos) qualquer uma das regiões, nomeadamente a gaivota-d’asa-escura Larus fuscus e a gaivota-de-audouin Larus audouinii, utilizou-se a média dos cinco anos mais recentes da série temporal.

EspécieAbundânciaProdutividade
 ContinenteAçoresMadeiraContinenteAçoresMadeira
Roque-de-castro Hydrobates castroxx xx 
Painho-de-monteiro Hydrobates monteiroi x  x 
Freira-do-bugio Pterodroma deserta  x  x
Freira-da-madeira Pterodroma madeira  x  x
Cagarra Calonectris borealisxxxxxx
Pintainho Puffinus baroli x    
Alma-negra Bulweria bulwerii x  x 
Galheta Gulosus aristotelisx  x  
Corvo-marinho Phalacrocorax carbox     
Gaivota-de-audouin Larus audouiniix     
Gaivota-d’asa-escura Larus fuscusx     
Gaivota-de-patas-amarelas Larus michahellisxxx   
Chilreta Sternula albifronsx     
Tagaz Gelochelidon niloticax     
Garajau-rosado Sterna dougallii x    
Garajau-comum Sterna hirundo x    
Tabela 6. Lista de espécies considerada para a avaliação do Indicador B1 – Abundância de Aves Marinhas Reprodutoras e B3 - Produtividade de Aves Marinhas.

Os valores de avaliação do indicador de tendência de abundância relativa são definidos com base na magnitude da mudança em relação ao valor de referência, pré-estabelecido com o valor de 1. O limiar da abundância relativa anual de uma espécie, para atingir o bom estado ambiental da população, foi estabelecido como uma proporção de 0,7 (ou 70%) do valor de referência para espécies que põem mais de um ovo, ou 0,8 (ou 80%) para espécies com postura de um único ovo. O valor mais recente da série temporal, foi utilizado para avaliar o estado ambiental atual da população em cada região. Foi possível fazer esta avaliação para um grupo de 16 espécies diferentes (Tabela 6; Figura 4).

Número de espécies de aves marinhas reprodutoras com dados de abundância para cada região ao longo dos anos, tendo possibilitado a avaliação do indicador B1 - Abundância de Aves Marinhas Reprodutoras.
Figura 4. Número de espécies de aves marinhas reprodutoras com dados de abundância para cada região ao longo dos anos, tendo possibilitado a avaliação do indicador B1 - Abundância de Aves Marinhas Reprodutoras.

Indicador B1 – Abundância de Aves Marinhas e Limícolas Não-reprodutoras

A avaliação deste indicador seguiu a metodologia descrita por Dierschke et al. (2022a), adotada pela OSPAR (OSPAR 2016-09). Este indicador foi construído a partir de séries temporais de abundância relativa de aves marinhas e limícolas no mar ou orla costeira, respetivamente, durante o período não-reprodutor.

Investigador a bordo, com binóculos ao pescoço, a registar observações no âmbito do censo ESAS. Ao fundo, observa-se a ilha da Berlenga e, no barco, parte do equipamento utilizado no censo, incluindo um cronómetro e um GPS.
Censos ESAS | Nuno Barros
Alcaide a voar sobre o oceano.
Alcaide | Thys Valkenburg

A informação acerca das aves marinhas (exceto negrola Melanitta nigra, corvo-marinho e guincho Larus ridibundus) foi obtida através de censos a bordo de embarcações. Os dados foram recolhidos de forma padronizada, seguindo a metodologia ESAS (European Seabirds At Sea) (Camphuysen & Garthe 2004). A estimativa do número de aves que ocorreram anualmente na região foi obtido através de uma análise da tendência, com base em modelos aditivos generalizados de distribuição de espécies (sdGAM) e com uma estrutura de autocorrelação apropriada (Mercker et al. 2021).

EspécieContinenteAçoresMadeira
Aves marinhas
Negrola Melanitta nigrax  
Alma-de-mestre Hydrobates pelagicusx  
Pardela-preta Ardenna griseax  
Pardela-de-barrete Ardenna gravisx  
Pardela-do-atlântico Puffinus puffinusx  
Pardela-balear Puffinus mauretanicusx  
Alcatraz Morus bassanusx  
Corvo-marinho Phalacrocorax carbox  
Gaivota-tridáctila Rissa tridactylax  
Guincho Larus ridibundusxxx
Gaivota-de-cabeça-preta Larus melanocephalusx  
Gaivota-d'asa-escura Larus fuscusx  
Gaivina-preta Chlidonias nigerx  
Garajau-de-bico-preto Thalasseus sandvicensisx  
Moleiro-pequeno Stercorarius parasiticusx  
Moleiro-do-árctico Stercorarius pomarinusx  
Alcaide Catharacta skuax  
Papagaio-do-mar Fratercula arcticax  
Torda-mergulheira Alca tordax  
Limícolas
Ostraceiro Haematopus ostralegusxx 
Tarambola-cinzenta Pluvialis squatarolaxxx
Borrelho-grande-de-coleira Charadrius hiaticulaxxx
Borrelho-de-coleira-interrompida Charadrius alexandrinusxxx
Maçarico-galego Numenius phaeopusxxx
Rola-do-mar Arenaria interpresxxx
Seixoeira Calidris canutusxx 
Pilrito-das-praias Calidris albaxxx
Pilrito-de-peito-preto Calidris alpinaxxx
Pilrito-escuro Calidris maritimaxx 
Maçarico-das-rochas Actitis hypoleucosxxx
Tabela 7. Lista de espécies consideradas para a avaliação do Indicador B1 – Abundância de Aves Marinhas e Limícolas Não-reprodutoras.

No caso das aves limícolas, do corvo-marinho e do guincho, a recolha de dados foi realizada no âmbito do Projeto Arenaria, seguindo a metodologia descrita por Lecoq et al. (2013). As contagens foram somadas para cada quadrícula em cada ano (Figura 5), resultando no número de aves estimado. Para o caso da negrola, foram utilizadas estimativas anuais da população invernante disponíveis na literatura, obtidas a partir de censos aéreos (Rufino & Neves 2004) ou costeiros (Catry et al. 2010a; Jesus 2018).

Cinco pilritos-das-praias adultos aproximam-se da areia molhada enquanto a onda recua.
Grupo de pilritos-das-praias | Don DeBold

À semelhança do indicador da abundância de aves marinhas reprodutoras, a abundância relativa de aves marinhas e limícolas não-reprodutoras foi apresentado como o número de aves estimado anualmente em proporção a um valor de referência. O valor de referência foi estabelecido com base nos primeiros 10 anos da série temporal, seguindo a metodologia descrita acima (ver ponto anterior). O mesmo procedimento foi utilizado para definir os limiares de avaliação. Foi possível fazer a avaliação deste indicador para um grupo de 30 espécies diferentes (Tabela 7; Figura 5).

Número de quadrículas Arenaria amostradas por ano em cada região.
Figura 5. Número de quadrículas Arenaria amostradas por ano em cada região.

Modelação da distribuição da abundância de aves marinhas não-reprodutoras

Neste exercício foram usados os dados de censos marinhos a bordo de embarcação. A recolha de dados decorreu entre dezembro de 2004 e dezembro de 2024, seguindo a metodologia ESAS (Camphuysen & Garthe 2004). A informação foi recolhida maioritariamente na zona costeira de Portugal continental, até aos 200 m de profundidade (Figura 6). Todas as aves pousadas foram contadas ao longo de um transecto de 300 m de largura. Para a contagem das aves em voo, foi utilizado o método de snapshot. Apenas as aves observadas dentro do transecto foram consideradas nas análises seguintes. Ao longo de um total de 67.871 km de transectos, foram registados 87.110 indivíduos das 16 espécies-alvo desta análise (Figura 7).

Transectos realizados entre dezembro de 2004 e 2024 para censos de aves marinhas na subárea do continente.
Figura 6. Transectos realizados entre dezembro de 2004 e 2024 para censos de aves marinhas na subárea do continente.

O somatório do número de aves contado em cada mês de cada ano foi somado para cada quadrícula de uma grelha de 10x10 km. Esta grelha foi pré-desenhada com base na cobertura dos censos marinhos, incluindo toda a faixa costeira da região do continente, até à batimétrica dos 200 m. Para modelar a abundância de aves por quadrícula, foram utilizadas variáveis espaciais, ambientais e temporais que mostraram ter um efeito na distribuição e abundância de aves marinhas em trabalhos anteriores (Pereira et al. 2018, Araújo et al. 2022a, De la Cruz et al. 2022a). As variáveis consideradas foram longitude, latitude, ano, período fenológico, estado do mar, tipo de substrato, distância à costa, batimetria, clorofila a, clorofila a no mês anterior, temperatura da superfície do mar, temperatura da superfície do mar no mês anterior, zooplâncton, zooplâncton no mês anterior, biomassa de sardinha Sardina pilchardus, biomassa de carapau-branco Trachurus trachurus e biomassa de biqueirão Engraulis encrasicolus (Tabela 8). O centro da quadrícula foi utilizado para obter o valor das variáveis com distribuição espacial. A latitude, a longitude, o ano e o estado do mar (na escala de Beaufort) foram registados no mar. O período fenológico foi definido para cada espécie e com base na informação disponível na bibliografia, com as seguintes categorias: reprodução, migração pós-reprodutora, invernada e migração pré-reprodutora (Figura 8).

Número de km percorridos, espécies-alvo e total de indivíduos observados durante os censos marinhos entre dezembro de 2004 e dezembro de 2024.
Figura 7. Número de km percorridos, espécies-alvo e total de indivíduos observados durante os censos marinhos entre dezembro de 2004 e dezembro de 2024.

O tipo de substrato do fundo marinho foi obtido através da Rede Europeia de Observação e de Dados do Meio Marinho (EMODnet), caracterizado em cinco categorias primárias: lama/areia lamacenta, areia, sedimento de granulação grossa, sedimentos mistos e rocha/pedregulhos. A batimetria também foi obtida através da EMODnet. A distância à costa foi calculada a partir da camada georreferenciada da linha de costa da Europa, disponibilizada pela Agência Europeia de Ambiente (EEA). A clorofila a, a temperatura da superfície do mar e o zooplâncton foram obtidos através do Serviço do Meio Marinho Copernicus da União Europeia (Aznar et al. 2016; Jean-Michel et al. 2021), numa resolução mensal e para uma quadrícula de 0,083 graus (cerca de 9 km). Os valores destas três variáveis foram ainda obtidos para o mês anterior ao das observações, assumindo que existe um desfasamento temporal entre estas variáveis de produção primária e a resposta dos elementos superiores da cadeia trófica, neste caso as aves marinhas (Suryan et al. 2012). Os valores anuais da biomassa de sardinha, carapau-branco e biqueirão foram obtidos para a plataforma Ibérica (ICES 2024).

Períodos fenológicos usados para modelar as abundâncias de aves obtidas através dos dados de censos marinhos. Os períodos foram definidos para cada espécie com base na informação disponível na bibliografia.
Figura 8. Períodos fenológicos usados para modelar as abundâncias de aves obtidas através dos dados de censos marinhos. Os períodos foram definidos para cada espécie com base na informação disponível na bibliografia.

Os modelos foram ajustados utilizando o número de aves registadas durante o esforço de observação. Uma seleção regressiva passo a passo foi implementada com base no desvio explicado para selecionar o modelo final. Foi usado o método de máxima verossimilhança restrita para estimar os parâmetros de suavização. De forma a evitar sobreajuste, implementaram-se restrições nos graus de liberdade máximos para as funções de suavização de todas as variáveis (k = 4). Considerou-se ainda dois tipos de distribuição da variável resposta, binomial negativa e Tweedie, de forma a ter em consideração a sobredispersão dos dados. Os valores preditivos finais foram obtidos através do modelo final selecionado, específico para cada espécie, para o período fenológico e estado do mar com maiores valores de coeficiente estimados, refletindo as condições com maiores abundâncias. O somatório destes valores para toda a área de estudo resultou no número de aves estimado, juntando-se os respectivos intervalos de confiança a 95%.

VariávelFonte de dados
Tipo de substratoEMODnet Geology
Distância à costaLinhas de costa - Agência Europeia de Ambiente
BatimetriaEMODnet Bathymetry
Clorofila aCopernicus (Aznar et al. 2016)
Clorofila a (mês anterior)Copernicus (Aznar et al. 2016)
Temperatura da superfície do marCopernicus (Jean-Michel et al. 2021)
Temperatura da superfície do mar (mês anterior)Copernicus (Jean-Michel et al. 2021)
ZooplânctonCopernicus (Aznar et al. 2016)
Zooplâncton (mês anterior)Copernicus (Aznar et al. 2016)
Biomassa de sardinhaICES
Biomassa de carapau-brancoICES
Biomassa de biqueirãoICES
Tabela 8. Variáveis ambientais utilizadas na modelação da abundância de aves marinhas não reprodutoras para a região do continente entre dezembro de 2004 e dezembro de 2024.

Indicador B3 – Produtividade de Aves Marinhas

A avaliação do indicador de produtividade de aves marinhas seguiu a metodologia descrita por Frederiksen et al. (2022), adotada pela OSPAR (Acordo OSPAR 2016-10). Na preparação deste indicador, foram utilizadas séries temporais da produtividade anual, calculada como o número de crias voadoras ou quase-voadoras, produzidos por cada casal ou ninho, numa amostra de locais de reprodução. Nem todos os locais foram amostrados em todos os anos da série temporal. O método utilizado foi baseado no pressuposto que os valores em falta tinham uma distribuição temporal aleatória, tendo sido calculada uma estimativa anual usando a média ponderada pelo tamanho da amostra para as colónias com dados disponíveis, de forma a reduzir o efeito dos dados em falta. Para que uma região fosse incluída na análise, foi necessário que existissem pelo menos 10 anos de amostragem da produtividade em duas colónias ou locais de reprodução distintos. No caso de apenas uma colónia ou local ter sido amostrado, essa unidade teria de ser representativa da situação na região (por exemplo, casos em que os dados provêm da maior colónia conhecida na área).

Cria muito jovem de roque-de-castro repousando num ninho artificial, com os restos das cascas dos ovos visíveis ao seu lado.
Cria de roque-de-castro | Tânia Nascimento

A métrica utilizada neste indicador foi a taxa de crescimento populacional estimada, obtida através do cálculo da média aritmética da produtividade na região, durante os últimos 6 anos. A média a seis anos foi usada para suavizar a tendência populacional. A tendência populacional foi definida como o fator a partir do qual a população cresce a cada ano (o rácio entre o tamanho da população num dado ano e o tamanho da população no ano anterior). Uma população com uma tendência estável tem um rácio de 1, uma população em crescimento tem um valor de rácio superior a 1 e uma população em declínio tem um valor inferior a 1.

Número de espécies de aves marinhas reprodutoras com dados de produtividade para cada região ao longo dos anos, tendo possibilitado a avaliação do indicador B3 - Produtividade de Aves Marinhas.
Figura 9. Número de espécies de aves marinhas reprodutoras com dados de produtividade para cada região ao longo dos anos, tendo possibilitado a avaliação do indicador B3 - Produtividade de Aves Marinhas.

Os limiares foram definidos para cada espécie dentro de cada região de forma a definir que a taxa de crescimento, se mantida, iria originar um declínio no tamanho da população maior ou igual a 30% ao longo das próximas três gerações. Este conceito é consistente com o critério da Lista Vermelha da UICN para definir uma espécie “Vulnerável” (IUCN 2012). O valor mais recente da série temporal, foi utilizado para avaliar o estado ambiental atual da população em cada região. Para mais detalhes sobre a metodologia utilizada para avaliar este indicador, consultar Frederiksen et al. (2022). Foi possível fazer esta avaliação para um grupo de 7 espécies diferentes (Tabela 6; Figura 9).

4. Estatutos de conservação

Continente - Almeida J, Godinho C, Leitão D & Lopes RJ (2022). Lista Vermelha das Aves de Portugal Continental. SPEA, ICNF, LabOR/UÉ, CIBIO/BIOPOLIS, Portugal.

Açores e Madeira - Cabral MJ (coord.), Almeida J, Almeida PR, Dellinger T, Ferrand de Almeida N, Oliveira ME, Palmeirim JM, Queiroz AI, L Rogado L & Santos-Reis M (eds.) (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa.

UICN Global - BirdLife International (2025). IUCN Red List for birds. Disponível em https://datazone.birdlife.org e acedido a 30.11.2025.