Metodologia
1. Seguimento individual de aves marinhas
Âmbito temporal e geográfico
O mapeamento da distribuição das espécies com dados de seguimento individual restringiu-se à ZEE de Portugal (ver exemplo na Figura 1). Este exercício foi feito para cada uma das três subáreas em separado, continente, Açores e Madeira. Em termos de cobertura temporal, foram incluídos todos os dados disponíveis e recolhidos por aparelhos de seguimento individual - o que, por ser uma tecnologia relativamente recente, traduziu-se numa série temporal com início há pouco mais de duas décadas. De facto, os dados mais antigos analisados, dizem respeito ao seguimento de pardela-balear com aparelhos de satélite usados ano ano 2000. Já os dados mais recentes, foram recolhidos em 2025. No entanto, existe uma grande heterogeneidade na cobertura da informação compilada para cada espécie, quer ao nível espacial, quer ao nível temporal.

Compilação e preparação dos dados
A compilação dos dados de seguimento individual começou com a consulta de três plataformas digitais específicas para este tipo de informação, a Seabird Tracking Database (gerida pela BirdLife International), o Movebank (gerido pelo Instituto Max Planck de Comportamento Animal) (Kolzsch et al. 2022) e a Seatrack (propriedade do Instituto Polar Norueguês e do Instituto Norueguês para Investigação da Natureza - NINA). Estas três plataformas albergam a grande maioria da informação de seguimento individual de aves disponível, a nível global.
Foram identificados os conjuntos de dados e as espécies com ocorrência dentro da ZEE de Portugal. As espécies listadas no Atlas das Aves Marinhas de Portugal (Meirinho et al. 2014), para as quais foi encontrada pouca ou nenhuma informação, foram sujeitas a um segundo nível de pesquisa que incluiu a consulta em motores de busca generalistas e especializados em documentos científicos. Utilizou-se como palavras-chave o nome das espécies (científico e comum) associado a diversos termos, nomeadamente, tracking, wintering distribution, GPS, GLS e movements. Os autores dos trabalhos identificados foram contactados diretamente, com o objetivo de pedir autorização para a utilização da informação e acesso à mesma.

Dos 336 conjuntos de dados identificados com potencial sobreposição com a ZEE nacional, foram disponibilizados 224, com as respectivas autorizações de utilização (Figura 2). Cada conjunto de dados correspondeu a uma espécie nidificante numa determinada colónia ou localização (salvo a exceção de aves capturadas no mar), monitorizada com um tipo específico de dispositivo e durante um período específico. No caso de espécies com dados de diferentes tipos de dispositivos (i.e. GPS e GLS), foram priorizados os GPS, devido ao menor erro de localização (apenas alguns metros). Nos casos em que a quantidade de dados obtidos por GPS foi reduzida, ou limitada a um pequeno número de indivíduos, e os GLS forneceram uma quantidades de dados substancialmente maior, optou-se por estes últimos, assumindo que refletiam melhor a distribuição da espécie apesar do erro de localização mais elevado (100 - 200 km) (Bennett et al. 2025). Os dados recolhidos por aparelhos GPS e PTT (sistema de satélite), por terem margens de erro semelhantes, foram considerados em conjunto.

O mapeamento da distribuição das espécies foi realizado separadamente para o período reprodutor e o período não-reprodutor (Figura 3). Para tal, foi criada uma grelha hexagonal coincidente com as três subáreas da ZEE portuguesa - continente, Açores e Madeira - escolhida por facilitar a visualização. As localizações foram agrupadas em hexágonos com 25 km de diâmetro, para dados GPS e 50 km, para GLS. Foi atribuído o somatório do número de localizações no interior de cada hexágono. Este processamento foi feito seguindo uma abordagem muito simples, de forma a evitar interpretações ou extrapolações dos dados, que não seriam o propósito do presente trabalho.

2. Abundância e distribuição das colónias de reprodução
Com o objetivo de mostrar visualmente a distribuição das colónias das aves marinhas que nidificam em Portugal e de ilustrar a sua importância relativa, esta publicação inclui para cada uma dessas espécies, um ou mais mapas com as colónias de nidificação no continente, na Madeira e nos Açores. As 21 espécies consideradas (Tabela 4) foram escolhidas com base na informação disponível no último Atlas das Aves Nidificantes de Portugal (Equipa Atlas 2022).
| Espécie | Continente | Açores | Madeira |
|---|---|---|---|
| Calcamar Pelagodroma marina | x | ||
| Roque-de-castro Hydrobates castro | x | x | x |
| Painho-de-monteiro Hydrobates monteiroi | x | ||
| Freira-do-bugio Pterodroma deserta | x | ||
| Freira-da-madeira Pterodroma madeira | x | ||
| Cagarra Calonectris borealis | x | x | x |
| Pardela-do-atlântico Puffinus puffinus | x | x | |
| Pintainho Puffinus baroli | x | x | |
| Alma-negra Bulweria bulwerii | x | x | |
| Galheta Gulosus aristotelis | x | ||
| Corvo-marinho Phalacrocorax carbo | x | ||
| Guincho Larus ridibundus | x | ||
| Gaivota-de-audouin Larus audouinii | x | ||
| Gaivota-d’asa-escura Larus fuscus | x | ||
| Gaivota-de-patas-amarelas Larus michahellis | x | x | x |
| Garajau-de-dorso-preto Onychoprion fuscatus | x | ||
| Chilreta Sternula albifrons | x | ||
| Tagaz Gelochelidon nilotica | x | ||
| Gaivina-dos-pauis Chlidonias hybrida | x | ||
| Garajau-rosado Sterna dougallii | x | x | |
| Garajau-comum Sterna hirundo | x | x | x |
| Airo Uria aalge | * |
*Nota: apesar do airo ainda ser considerado como espécie nidificante, a sua reprodução não é notada desde 2002.]
O desafio de mapear e quantificar as colónias de aves marinhas é exacerbado pela falta de informação que ainda persiste sobre algumas populações, que se deve sobretudo à dificuldade de prospeção em locais inacessíveis, mas também ao comportamento noturno e elusivo de muitas delas. Outra dificuldade importante é a ausência de programas de monitorização de longo prazo em muitos locais e para muitas espécies.
Âmbito temporal e geográfico
Inicialmente, procurou delimitar-se a utilização de informação atualizada, considerando apenas os últimos 5 anos (2021-2025). Contudo, devido às lacunas de informação existentes para muitas espécies e locais, a cobertura temporal foi estendida para algumas populações, de forma a incluir a melhor informação existente. No caso de espécies cujos locais de nidificação e padrões de abundância apresentam elevada variabilidade, como é o caso dos garajaus, devido à sua flexibilidade comportamental e à maior exposição dos seus habitats a pressões humanas, foram incluídos dados dos últimos 10 anos (2016-2025).
A nível espacial, a identificação dos locais de nidificação no território continental incluiu os ambientes insulares, como as Berlengas e as ilhas Barreira, mas também a faixa costeira, nomeadamente falésias e zonas húmidas costeiras, incluindo estuários e lagoas. Também foram incluídos os locais de nidificação em albufeiras interiores, como por exemplo, o Alqueva. Foram também identificadas as colónias de nidificação nos arquipélagos da Madeira e dos Açores, procurando-se ilustrar separadamente as colónias das três regiões (continente, Açores e Madeira) para melhor visualização e interpretação dos resultados.
Recolha de dados
A recolha de informação sobre colónias de nidificação foi efetuada através das seguintes formas:
- Pedido de dados a investigadores e instituições governamentais
Foram feitos pedidos de dados a investigadores que desenvolvem ou desenvolveram trabalhos de monitorização em colónias de aves marinhas, sobre a localização e tamanho de colónias reprodutoras. O mesmo tipo de pedido de informação foi enviado para as entidades governamentais, tanto no continente (ICNF) como nos arquipélagos (IFCN e SRAAC). Para facilitar a partilha de informação e a padronização dos dados recolhidos, foi enviado um template de ficheiro para partilha de dados, em formato Excel (Tabela 5). - Recolha bibliográfica
Foram consultadas publicações de referência, artigos científicos e relatórios técnicos de projetos, para a recolha de informação sobre a localização de colónias e tamanhos populacionais. - Fontes de dados adicionais
Para algumas espécies (e.g., corvo-marinho Phalacrocorax carbo), foi ainda recolhida informação adicional proveniente de outro tipo de plataformas, como o eBird/PortugalAves, sobre a localização de colónias de nidificação. Apenas foram considerados dados adicionais nos casos devidamente comprovados, isto é, quando existiu evidência documental da reprodução (e.g., registo fotográfico) e foi possível determinar a respetiva localização.
| Parâmetro | Descrição |
|---|---|
| Espécie | Nome científico da espécie |
| Região | Continente, RA Madeira ou RA Açores |
| Ilha | Nome da ilha |
| Ilhéu/Colónia | Nome do ilhéu ou colónia |
| Coordenadas da colónia | Latitude e Longitude, no formato decimal |
| Coordenadas da faixa costeira | No caso de a área monitorizada corresponder a uma faixa costeira extensa, devem ser indicadas preferencialmente as coordenadas de início e fim dessa faixa costeira ou, em alternativa, as coordenadas centrais dessa faixa costeira. |
| Precisão das coordenadas | alta: 0 - 50m média: 50 - 250m baixa: > 250m |
| Estimativa populacional | Contagem ou estimativa do tamanho da população |
| Intervalo | Valor mínimo e máximo da estimativa populacional |
| Unidade de contagem | Nº de casais, ninhos ou indivíduos |
| Rigor da estimativa | A - margem de erro estimada inferior a 10% B - margem de erro estimada inferior a 50% C - margem de erro estimada superior a 50% D - desconhecida |
| Método de censo | 1 - Prospeção/contagem de ninhos/casais 2 - Escutas |
| Cobertura do censo | Completa - maioria da área potencial foi monitorizada Incompleta - Uma parte significativa da área potencial não foi monitorizada (> 25%) Muito incompleta - Uma parte significativa da área potencial não foi monitorizada (> 50%) |
| Ano | Ano ou intervalo de anos da contagem ou estimativa populacional |
| Referência | Deve indicar-se a origem e autoria dos dados, referindo se são dados não publicados ou citando um relatório, livro ou artigo, caso estes dados estejam já publicados. |
| Notas | Outras informações |
Preparação dos dados
Os dados foram organizados em ficheiros individuais, com a informação das coordenadas, da estimativa populacional e data da estimativa, por espécie e por região (continente, RA Açores, e RA Madeira). No caso de colónias próximas (< 1km), a informação foi agregada, de forma a otimizar a visualização dos mapas. As estimativas foram ainda organizadas por classes de abundância, de forma a facilitar a visualização e interpretação dos dados nos mapas, e a minimizar o impacto de estimativas menos precisas. No caso de existirem várias estimativas populacionais, o critério de escolha foi a utilização das mais recentes, excepto nos casos em que as estimativas anteriores eram mais completas e/ou precisas, dando-se assim primazia a estas.
No caso da espécie ocorrer em mais do que uma região, foi ainda preparado um ficheiro adicional com a informação das várias regiões e a estimativa populacional agregada por ilha, ou grupo de ilhas (e.g., Desertas, Selvagens). Nestes casos, a localização apresentada não é a localização da colónia, mas uma localização central da ilha ou da maior ilha, no caso de um grupo de ilhas.
A lista dos dados utilizados e as respectivas fontes podem ser consultadas na Publicação.
3. Avaliação do estado das populações
A avaliação dos indicadores presente neste trabalho foi realizada para cada espécie e região (continente, Açores e Madeira) em separado. Para espécies com populações reprodutoras e não-reprodutoras ou migratórias, a avaliação incidiu apenas sobre a população reprodutora (excepto no caso da gaivota-d’asa escura Larus fuscus e do corvo-marinho Phalacrocorax carbo).
Âmbito temporal e geográfico
A informação utilizada para avaliar o estado ambiental das aves marinhas nidificantes incluiu as séries históricas disponíveis na bibliografia e em bases de dados existentes, refletindo a informação mais atual até 2024. Em termos espaciais, a avaliação foi separada por região – continente, Açores e Madeira. No caso da avaliação das populações de aves marinhas não-reprodutoras foi considerada a informação recolhida entre 2004 e 2024, através de censos marinhos, a bordo de embarcações. Esta avaliação foi realizada apenas para Portugal continental, restringindo-se à zona costeira até aos 200 m de profundidade, devido à ausência de uma série temporal robusta que permitisse fazer este exercício para as regiões dos Açores e da Madeira. No caso da avaliação das populações de aves limícolas não-reprodutoras, a informação foi recolhida no inverno (dezembro e janeiro) entre 2009 e 2025, no âmbito do Projeto Arenaria. A cobertura deste projeto incluiu a costa não-estuarina do continente e toda a costa das ilhas dos Açores e da Madeira.
Indicador B1 – Abundância de Aves Marinhas Reprodutoras
A avaliação deste indicador seguiu a metodologia descrita por Dierschke et al. (2022b) e adotada pela OSPAR (Acordo OSPAR 2016-09). Esta avaliação tem como base a construção de séries temporais de estimativas anuais de abundância relativa de aves reprodutoras. Nem todas as colónias e locais de reprodução foram amostrados em todos os anos da série temporal. Para colmatar esta lacuna, os valores em falta foram interpolados a partir dos anos amostrados, usando modelos aditivos generalizados GAM (Ward et al. 2014). Apenas as colónias ou locais de reprodução com mais de dois anos de dados de abundância observada foram incluídos nesta análise.

Neste indicador, a abundância relativa é apresentada como o número de aves adultas ou o número de casais reprodutores observados ou estimados anualmente em proporção a um valor de referência, seguindo a seguinte equação:
Abundância relativa = abundância anual / valor de referência
O valor de referência para a abundância foi estabelecido consoante a informação disponível, dando-se prioridade ao valor histórico de referência (valor de abundância anterior ao início da série temporal). Na ausência de tal valor, optou-se por utilizar o período inicial da série temporal, ou seja, os primeiros 10 anos. Neste caso, o valor de referência foi obtido através de predições com base num modelo linear generalizado para procurar uma tendência anual nesse período. Os valores de significância p e os intervalos de confiança das estimativas foram calculados assumindo uma distribuição “Quasi-poisson” de forma a ter em consideração a sobredispersão dos dados. No caso desta regressão ser significativa para os primeiros 10 anos (valor de p ≤ 0,05), o valor estimado pelo modelo para o primeiro ano foi utilizado como valor base, caso contrário, foi utilizada a média da abundância nos primeiros 10 anos, excluindo os anos sem contagens. A média geométrica da abundância nos últimos seis anos da série temporal (i.e. o período mais recente) foi avaliada em comparação com o valor de referência. No caso de espécies que colonizaram recentemente (<50 anos) qualquer uma das regiões, nomeadamente a gaivota-d’asa-escura Larus fuscus e a gaivota-de-audouin Larus audouinii, utilizou-se a média dos cinco anos mais recentes da série temporal.
| Espécie | Abundância | Produtividade | ||||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Continente | Açores | Madeira | Continente | Açores | Madeira | |
| Roque-de-castro Hydrobates castro | x | x | x | x | ||
| Painho-de-monteiro Hydrobates monteiroi | x | x | ||||
| Freira-do-bugio Pterodroma deserta | x | x | ||||
| Freira-da-madeira Pterodroma madeira | x | x | ||||
| Cagarra Calonectris borealis | x | x | x | x | x | x |
| Pintainho Puffinus baroli | x | |||||
| Alma-negra Bulweria bulwerii | x | x | ||||
| Galheta Gulosus aristotelis | x | x | ||||
| Corvo-marinho Phalacrocorax carbo | x | |||||
| Gaivota-de-audouin Larus audouinii | x | |||||
| Gaivota-d’asa-escura Larus fuscus | x | |||||
| Gaivota-de-patas-amarelas Larus michahellis | x | x | x | |||
| Chilreta Sternula albifrons | x | |||||
| Tagaz Gelochelidon nilotica | x | |||||
| Garajau-rosado Sterna dougallii | x | |||||
| Garajau-comum Sterna hirundo | x | |||||
Os valores de avaliação do indicador de tendência de abundância relativa são definidos com base na magnitude da mudança em relação ao valor de referência, pré-estabelecido com o valor de 1. O limiar da abundância relativa anual de uma espécie, para atingir o bom estado ambiental da população, foi estabelecido como uma proporção de 0,7 (ou 70%) do valor de referência para espécies que põem mais de um ovo, ou 0,8 (ou 80%) para espécies com postura de um único ovo. O valor mais recente da série temporal, foi utilizado para avaliar o estado ambiental atual da população em cada região. Foi possível fazer esta avaliação para um grupo de 16 espécies diferentes (Tabela 6; Figura 4).

Indicador B1 – Abundância de Aves Marinhas e Limícolas Não-reprodutoras
A avaliação deste indicador seguiu a metodologia descrita por Dierschke et al. (2022a), adotada pela OSPAR (OSPAR 2016-09). Este indicador foi construído a partir de séries temporais de abundância relativa de aves marinhas e limícolas no mar ou orla costeira, respetivamente, durante o período não-reprodutor.


A informação acerca das aves marinhas (exceto negrola Melanitta nigra, corvo-marinho e guincho Larus ridibundus) foi obtida através de censos a bordo de embarcações. Os dados foram recolhidos de forma padronizada, seguindo a metodologia ESAS (European Seabirds At Sea) (Camphuysen & Garthe 2004). A estimativa do número de aves que ocorreram anualmente na região foi obtido através de uma análise da tendência, com base em modelos aditivos generalizados de distribuição de espécies (sdGAM) e com uma estrutura de autocorrelação apropriada (Mercker et al. 2021).
| Espécie | Continente | Açores | Madeira |
|---|---|---|---|
| Aves marinhas | |||
| Negrola Melanitta nigra | x | ||
| Alma-de-mestre Hydrobates pelagicus | x | ||
| Pardela-preta Ardenna grisea | x | ||
| Pardela-de-barrete Ardenna gravis | x | ||
| Pardela-do-atlântico Puffinus puffinus | x | ||
| Pardela-balear Puffinus mauretanicus | x | ||
| Alcatraz Morus bassanus | x | ||
| Corvo-marinho Phalacrocorax carbo | x | ||
| Gaivota-tridáctila Rissa tridactyla | x | ||
| Guincho Larus ridibundus | x | x | x |
| Gaivota-de-cabeça-preta Larus melanocephalus | x | ||
| Gaivota-d'asa-escura Larus fuscus | x | ||
| Gaivina-preta Chlidonias niger | x | ||
| Garajau-de-bico-preto Thalasseus sandvicensis | x | ||
| Moleiro-pequeno Stercorarius parasiticus | x | ||
| Moleiro-do-árctico Stercorarius pomarinus | x | ||
| Alcaide Catharacta skua | x | ||
| Papagaio-do-mar Fratercula arctica | x | ||
| Torda-mergulheira Alca torda | x | ||
| Limícolas | |||
| Ostraceiro Haematopus ostralegus | x | x | |
| Tarambola-cinzenta Pluvialis squatarola | x | x | x |
| Borrelho-grande-de-coleira Charadrius hiaticula | x | x | x |
| Borrelho-de-coleira-interrompida Charadrius alexandrinus | x | x | x |
| Maçarico-galego Numenius phaeopus | x | x | x |
| Rola-do-mar Arenaria interpres | x | x | x |
| Seixoeira Calidris canutus | x | x | |
| Pilrito-das-praias Calidris alba | x | x | x |
| Pilrito-de-peito-preto Calidris alpina | x | x | x |
| Pilrito-escuro Calidris maritima | x | x | |
| Maçarico-das-rochas Actitis hypoleucos | x | x | x |
No caso das aves limícolas, do corvo-marinho e do guincho, a recolha de dados foi realizada no âmbito do Projeto Arenaria, seguindo a metodologia descrita por Lecoq et al. (2013). As contagens foram somadas para cada quadrícula em cada ano (Figura 5), resultando no número de aves estimado. Para o caso da negrola, foram utilizadas estimativas anuais da população invernante disponíveis na literatura, obtidas a partir de censos aéreos (Rufino & Neves 2004) ou costeiros (Catry et al. 2010a; Jesus 2018).

À semelhança do indicador da abundância de aves marinhas reprodutoras, a abundância relativa de aves marinhas e limícolas não-reprodutoras foi apresentado como o número de aves estimado anualmente em proporção a um valor de referência. O valor de referência foi estabelecido com base nos primeiros 10 anos da série temporal, seguindo a metodologia descrita acima (ver ponto anterior). O mesmo procedimento foi utilizado para definir os limiares de avaliação. Foi possível fazer a avaliação deste indicador para um grupo de 30 espécies diferentes (Tabela 7; Figura 5).

Modelação da distribuição da abundância de aves marinhas não-reprodutoras
Neste exercício foram usados os dados de censos marinhos a bordo de embarcação. A recolha de dados decorreu entre dezembro de 2004 e dezembro de 2024, seguindo a metodologia ESAS (Camphuysen & Garthe 2004). A informação foi recolhida maioritariamente na zona costeira de Portugal continental, até aos 200 m de profundidade (Figura 6). Todas as aves pousadas foram contadas ao longo de um transecto de 300 m de largura. Para a contagem das aves em voo, foi utilizado o método de snapshot. Apenas as aves observadas dentro do transecto foram consideradas nas análises seguintes. Ao longo de um total de 67.871 km de transectos, foram registados 87.110 indivíduos das 16 espécies-alvo desta análise (Figura 7).

O somatório do número de aves contado em cada mês de cada ano foi somado para cada quadrícula de uma grelha de 10x10 km. Esta grelha foi pré-desenhada com base na cobertura dos censos marinhos, incluindo toda a faixa costeira da região do continente, até à batimétrica dos 200 m. Para modelar a abundância de aves por quadrícula, foram utilizadas variáveis espaciais, ambientais e temporais que mostraram ter um efeito na distribuição e abundância de aves marinhas em trabalhos anteriores (Pereira et al. 2018, Araújo et al. 2022a, De la Cruz et al. 2022a). As variáveis consideradas foram longitude, latitude, ano, período fenológico, estado do mar, tipo de substrato, distância à costa, batimetria, clorofila a, clorofila a no mês anterior, temperatura da superfície do mar, temperatura da superfície do mar no mês anterior, zooplâncton, zooplâncton no mês anterior, biomassa de sardinha Sardina pilchardus, biomassa de carapau-branco Trachurus trachurus e biomassa de biqueirão Engraulis encrasicolus (Tabela 8). O centro da quadrícula foi utilizado para obter o valor das variáveis com distribuição espacial. A latitude, a longitude, o ano e o estado do mar (na escala de Beaufort) foram registados no mar. O período fenológico foi definido para cada espécie e com base na informação disponível na bibliografia, com as seguintes categorias: reprodução, migração pós-reprodutora, invernada e migração pré-reprodutora (Figura 8).

O tipo de substrato do fundo marinho foi obtido através da Rede Europeia de Observação e de Dados do Meio Marinho (EMODnet), caracterizado em cinco categorias primárias: lama/areia lamacenta, areia, sedimento de granulação grossa, sedimentos mistos e rocha/pedregulhos. A batimetria também foi obtida através da EMODnet. A distância à costa foi calculada a partir da camada georreferenciada da linha de costa da Europa, disponibilizada pela Agência Europeia de Ambiente (EEA). A clorofila a, a temperatura da superfície do mar e o zooplâncton foram obtidos através do Serviço do Meio Marinho Copernicus da União Europeia (Aznar et al. 2016; Jean-Michel et al. 2021), numa resolução mensal e para uma quadrícula de 0,083 graus (cerca de 9 km). Os valores destas três variáveis foram ainda obtidos para o mês anterior ao das observações, assumindo que existe um desfasamento temporal entre estas variáveis de produção primária e a resposta dos elementos superiores da cadeia trófica, neste caso as aves marinhas (Suryan et al. 2012). Os valores anuais da biomassa de sardinha, carapau-branco e biqueirão foram obtidos para a plataforma Ibérica (ICES 2024).

Os modelos foram ajustados utilizando o número de aves registadas durante o esforço de observação. Uma seleção regressiva passo a passo foi implementada com base no desvio explicado para selecionar o modelo final. Foi usado o método de máxima verossimilhança restrita para estimar os parâmetros de suavização. De forma a evitar sobreajuste, implementaram-se restrições nos graus de liberdade máximos para as funções de suavização de todas as variáveis (k = 4). Considerou-se ainda dois tipos de distribuição da variável resposta, binomial negativa e Tweedie, de forma a ter em consideração a sobredispersão dos dados. Os valores preditivos finais foram obtidos através do modelo final selecionado, específico para cada espécie, para o período fenológico e estado do mar com maiores valores de coeficiente estimados, refletindo as condições com maiores abundâncias. O somatório destes valores para toda a área de estudo resultou no número de aves estimado, juntando-se os respectivos intervalos de confiança a 95%.
| Variável | Fonte de dados |
|---|---|
| Tipo de substrato | EMODnet Geology |
| Distância à costa | Linhas de costa - Agência Europeia de Ambiente |
| Batimetria | EMODnet Bathymetry |
| Clorofila a | Copernicus (Aznar et al. 2016) |
| Clorofila a (mês anterior) | Copernicus (Aznar et al. 2016) |
| Temperatura da superfície do mar | Copernicus (Jean-Michel et al. 2021) |
| Temperatura da superfície do mar (mês anterior) | Copernicus (Jean-Michel et al. 2021) |
| Zooplâncton | Copernicus (Aznar et al. 2016) |
| Zooplâncton (mês anterior) | Copernicus (Aznar et al. 2016) |
| Biomassa de sardinha | ICES |
| Biomassa de carapau-branco | ICES |
| Biomassa de biqueirão | ICES |
Indicador B3 – Produtividade de Aves Marinhas
A avaliação do indicador de produtividade de aves marinhas seguiu a metodologia descrita por Frederiksen et al. (2022), adotada pela OSPAR (Acordo OSPAR 2016-10). Na preparação deste indicador, foram utilizadas séries temporais da produtividade anual, calculada como o número de crias voadoras ou quase-voadoras, produzidos por cada casal ou ninho, numa amostra de locais de reprodução. Nem todos os locais foram amostrados em todos os anos da série temporal. O método utilizado foi baseado no pressuposto que os valores em falta tinham uma distribuição temporal aleatória, tendo sido calculada uma estimativa anual usando a média ponderada pelo tamanho da amostra para as colónias com dados disponíveis, de forma a reduzir o efeito dos dados em falta. Para que uma região fosse incluída na análise, foi necessário que existissem pelo menos 10 anos de amostragem da produtividade em duas colónias ou locais de reprodução distintos. No caso de apenas uma colónia ou local ter sido amostrado, essa unidade teria de ser representativa da situação na região (por exemplo, casos em que os dados provêm da maior colónia conhecida na área).

A métrica utilizada neste indicador foi a taxa de crescimento populacional estimada, obtida através do cálculo da média aritmética da produtividade na região, durante os últimos 6 anos. A média a seis anos foi usada para suavizar a tendência populacional. A tendência populacional foi definida como o fator a partir do qual a população cresce a cada ano (o rácio entre o tamanho da população num dado ano e o tamanho da população no ano anterior). Uma população com uma tendência estável tem um rácio de 1, uma população em crescimento tem um valor de rácio superior a 1 e uma população em declínio tem um valor inferior a 1.

Os limiares foram definidos para cada espécie dentro de cada região de forma a definir que a taxa de crescimento, se mantida, iria originar um declínio no tamanho da população maior ou igual a 30% ao longo das próximas três gerações. Este conceito é consistente com o critério da Lista Vermelha da UICN para definir uma espécie “Vulnerável” (IUCN 2012). O valor mais recente da série temporal, foi utilizado para avaliar o estado ambiental atual da população em cada região. Para mais detalhes sobre a metodologia utilizada para avaliar este indicador, consultar Frederiksen et al. (2022). Foi possível fazer esta avaliação para um grupo de 7 espécies diferentes (Tabela 6; Figura 9).
4. Estatutos de conservação
Continente - Almeida J, Godinho C, Leitão D & Lopes RJ (2022). Lista Vermelha das Aves de Portugal Continental. SPEA, ICNF, LabOR/UÉ, CIBIO/BIOPOLIS, Portugal.
Açores e Madeira - Cabral MJ (coord.), Almeida J, Almeida PR, Dellinger T, Ferrand de Almeida N, Oliveira ME, Palmeirim JM, Queiroz AI, L Rogado L & Santos-Reis M (eds.) (2005). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa.
UICN Global - BirdLife International (2025). IUCN Red List for birds. Disponível em https://datazone.birdlife.org e acedido a 30.11.2025.
Ward EJ, Holmes EE, Thorson JT & Collen B (2014). Complexity is costly: a meta‐analysis of parametric and non‐parametric methods for short‐term population forecasting. Oikos 123(6): 652-661. Bibliografia:
Suryan R, Santora J & Sydeman W (2012). New approach for using remotely sensed chlorophyll a to identify seabird hotspots. Marine Ecology Progress Series 451: 213–225. Bibliografia:
Rufino R & Neves R (2004). Wintering common scoter Melanitta nigra in Portugal: results of aerial surveys - 1991-1999. Regional Status Reports (relatório não publicado). Bibliografia:
Pereira JM, Krüger L, Oliveira N, Meirinho A, Silva A, Ramos JA, Paiva VH (2018). Using a multi-model ensemble forecasting approach to identify key marine protected areas for seabirds in the Portuguese coast. Ocean Coastal Management 153: 98–107 Bibliografia:
Mercker M, Markones N, Borkenhagen K, Schwemmer H, Wahl & J Garthe S (2021). An integrated framework to estimate seabird population numbers and trends. Journal of Wildlife Management 85: 751-771. Bibliografia:
Meirinho A, Barros N, Oliveira N, Catry P, Lecoq M, Paiva V, Geraldes P, Granadeiro JP, Ramírez I & Andrade J (2014). Atlas das Aves Marinhas de Portugal. Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. Bibliografia:
Lecoq M, Lourenço PM, Catry P, Andrade J & Granadeiro JP (2013). Wintering waders on the Portuguese mainland non-estuarine coast: results of the 2009-2011 survey. Wader Study Group Bulletin 120: 66-70. Bibliografia:
Kolzsch A, Lohr A, Partecke J, Quetting M, Safi K, Scharf A, Schneider G, Lang I, Schaeuffelhut F, Landwehr M, Storhas M, van Schalkwyk L, Vinciguerra C, Weinzierl R & Wikelski M (2022). The Movebank system for studying global animal movement and demography. Methods in Ecology and Evolution 13(2): 419-431. Bibliografia:
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Catry P, Costa H, Elias G & Matias R (2010a). Aves de Portugal, Ornitologia do Território Continental. Assírio e Alvim, Lisboa Glossário:
O PTT (terminal transmissor de plataforma) é um pequeno aparelho que se coloca nas aves para estudar os seus movimentos de larga escala (geralmente a migração e invernada mas também a reprodução). Estes aparelhos utilizam o sistema de satélite Argos para obter informação acerca da posição, latitude, longitude e altitude, em qualquer ponto da Terra e a partir de uma rede de satélites em órbita. Têm uma precisão semelhante aos aparelhos GPS. Glossário:
Indicador de biomassa fitoplanctónica e produtividade primária. Glossário:
Convenção internacional para proteção do meio marinho do Atlântico Nordeste, responsável por definir indicadores e metas ambientais. Glossário:
Valor de referência usado para determinar se uma população atinge ou não um estado desejado. Glossário:
Impactos negativos causados diretamente pelas atividades humanas sobre o ambiente, afetando ecossistemas terrestres, aquáticos e a atmosfera. Incluem poluição, alterações no uso do solo, extração de recursos, emissões atmosféricas e distúrbio, resultando em perda de biodiversidade e degradação dos ecossistemas. Glossário:
Espécie ou parâmetro que reflete o estado de um ecossistema ou alterações ambientais. Glossário:
Contagens padronizadas de aves realizadas no mar para estimar abundância e distribuição. Glossário:
Conjunto de dados recolhidos de forma consistente ao longo do tempo, usados para analisar tendências. Glossário:
Monitorização dos movimentos de indivíduos através de dispositivos. Glossário:
Direção da variação do tamanho de uma população ao longo do tempo (crescimento, declínio ou estabilidade). Glossário:
Medida do sucesso reprodutor de uma população, geralmente expressa como o número médio de crias produzidas por casal. Glossário:
Quantidade total de uma população animal ou vegetal presente num determinado ecossistema, expressa normalmente em unidades de peso. Glossário:
Conceito definido no âmbito da Diretiva-Quadro Estratégia Marinha (DQEM), referente à condição dos elementos do meio marinho, incluindo as aves. Pretende avaliar se os ecossistemas estão saudáveis, equilibrados e capazes de suportar as funções ecológicas e os usos humanos de forma sustentável. O objetivo final é que os elementos e os ecossistemas atinjam o Bom Estado Ambiental. Glossário:
Pequeno aparelho que se coloca nas aves para estudar os seus movimentos a uma escala mais fina (geralmente durante a reprodução). Estes aparelhos utilizam o sistema global de posicionamento (do inglês Global Positioning System) para obter informação acerca da posição, latitude, longitude e altitude, em qualquer ponto da Terra e a partir de uma rede de satélites em órbita. Glossário:
É um grupo de aves associado a zonas húmidas costeiras ou interiores, geralmente encontradas em habitats de lodo, sapais, estuários, margens de lagoas, areais e zonas alagadas. Mas algumas dessas espécies utilizam também a costa arenosa e rochosa do nosso país. Glossário:
De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, os países costeiros têm direito a declarar uma ZEE de espaço marítimo para além das suas águas territoriais. A ZEE nacional é delimitada por uma linha imaginária situada a 200 milhas náuticas da costa e separa as águas nacionais das águas internacionais ou comuns. Dentro da sua ZEE, cada estado goza de direitos como: o direito à exploração dos recursos marinhos, o direito à investigação científica e o direito a controlar a pesca por parte de embarcações estrangeiras. Glossário:
Período geralmente correspondente aos meses de inverno, podendo incluir parte do outono. Glossário:
Pequeno aparelho que se coloca nas aves para estudar os seus movimentos de larga escala (geralmente a migração), e que funciona através do registo da intensidade de luz (a partir da qual se estima a duração da noite e a hora do meio-dia local e, consequentemente, a latitude e a longitude em cada dia). Glossário:
Pequeno peixe ósseo da família Engraulidae, cujo nome científico é Engraulis encrasicolus, também conhecido por anchova. Glossário:
Organização Não Governamental (ONG) internacional que promove a conservação das aves, dos seus habitats e da biodiversidade global, tendo representação em 120 países através de outras ONG locais e nacionais. A SPEA é a representante em Portugal da BirdLife International.